By Aniel Barbe

A liberalidade é dar livre e abundantemente coisas boas aos outros. Se você dá uma mesada ao seu filho ou filha, uma boa gorjeta ao porteiro ou uma esmola ao pedinte, irá muito provavelmente ser tida como uma pessoa muito generosa. Para fins deste artigo, consideramos a liberalidade como a aplicação do plano sistemático de benevolência composto por três elementos: dízimos, ofertas proporcionais e doações (Conselhos sobre Mordomia, pp. 51, 52).

Este artigo trata dos aspetos de como e o porquê das doações religiosas, propondo depois um modelo para ajudar as igrejas locais a desenvolverem a sua liberalidade.

Fatos e Fatores que Influenciam as Doações Religiosas

Existem diversos fatores que influenciam as doações religiosas. No final de uma palestra de mordomia, um pastor perguntou-me certa vez: O que devo fazer pela minha congregação para que esta seja generosa? Infelizmente, ou felizmente, não há uma resposta única. Todavia, há uma ideia principal que emerge dos estudos sobre este tema: As doações religiosas são um comportamento racional; pode ser explicado, influenciado e alterado.

Smith e Emerson (2008) revelam alguns fatos interessantes sobre as doações religiosas. Afigura-se que 20 porcento de todos os Cristãos americanos não dão nada para a igreja e os que o fazem, dão muito pouco. A maioria do dinheiro da igreja vem da minoria dos seus membros: 20% dos membros providenciam 75% dos recursos financeiros. Paradoxalmente, os que ganham mais dão menos em termos de porcentagem, do que aqueles que ganham menos. As doações religiosas são inversamente proporcionais ao aumento da renda; quanto maior a renda, menores são as doações religiosas. Há uma tendência crescente entre os Cristãos de darem exclusivamente para as suas próprias comunidades de fé.

Temos que admitir a existência de muito poucos estudos realizados na igreja Adventista sobre as doações religiosas. Parece que o nosso interesse principal está mais focado na contabilidade e menos na descoberta do perfil dos ofertantes e dos fatores que influenciam a doação de ofertas. Um estudo Adventista realizado sobre este assunto por Mclver (2016), envolvendo igrejas em cinco continentes, revela que o valor absoluto em dólares devolvido como dízimo aumentou mas a porcentagem devolvida da renda diminuiu (pp. 22-23) durante os últimos 40 anos. Esta situação, associada ao declínio das ofertas, representa uma ameaça à missão, especialmente ao nosso compromisso para com a missão global.

São muitos os fatores determinantes das doações religiosas; seria insensato focar apenas em um único fator. Os indivíduos que têm uma fé sólida, com uma teologia conservadora (Iannaccone, 1994; Hoge et al. 1996; Olson & Perl, 2001), forte envolvimento e frequência da igreja (Hoge & Fenggang, 1994) são mais propícios a dar mais. O bom gerenciamento das finanças pessoais, composto por planejamento-promessa, tem um impacto nas doações religiosas (Smith & Emerson, 2008). Outro fator determinante positivo é a ênfase adequada, por parte da igreja local, no valor das doações religiosas. Por fim, o compromisso de gerenciamento financeiro sábio e transparente por parte da igreja ou da organização religiosa exerce igualmente uma forte influência nas doações (Peifer, 2010). Mclver (2016) observa que alguns motivos, crenças e atitudes entre os Adventistas do Sétimo Dia estão fortemente correlacionados com o comportamento relativamente ao dízimo (p. 29).

 Modelo de Desenvolvimento da Liberalidade

A nossa abordagem ao desenvolvimento do nível de liberalidade baseia-se em alguns pressupostos principais: a igreja é um organismo vivo; a liberalidade não acontece num vácuo; os seres humanos podem aliar-se a Deus a fim de criarem as condições para o crescimento da fidelidade-liberalidade; e a igreja local é o lugar onde ocorre o desenvolvimento da liberalidade. O modelo roda em torno de três componentes principais: capacitação dos membros, generalização da mensagem de mordomia e criação de uma cultura congregacional propícia.

Capacitação dos membros

 O impulso aqui é de ajudar o desenvolvimento dos membros em todos os aspeto de suas vidas (3 João 1:2). E o foco está na capacitação espiritual e financeira.

A capacitação espiritual infere que os membros são encorajados a estabelecerem e manterem uma ligação diária com Deus. É fundamentado no princípio de que a contemplação leva à transformação (2 Cor. 3: 18). As interações com o grande Doador são o meio mais seguro de transformar indivíduos egocêntricos. Enquanto estudava as práticas dizimistas entre os Adventistas do Sétimo Dia, Mclver (2016) observa que as pessoas que oram regularmente, que estudam a Bíblia diariamente, estudam a lição da Escola Sabatina e frequentam os cultos da igreja são mais propícias a serem dizimistas fiéis. Na mesma perspetiva, a certeza de que os ensinos específicos da fé da pessoa são verdadeiros (Olson & Perl, 2005, p.126), um forte sentido de missão (Mundey et al., 2011) e a prática de doar como disciplina espiritual (Smith & Emerson, 2008) são fortes indicadores da liberalidade. A associação entre a espiritualidade e liberalidade é incontestável.

Algumas iniciativas locais podem contribuir para a capacitação espiritual dos membros:

 

  • Ajudar os membros a seguirem um plano diário de devoção. A iniciativa Crede nos Seus Profetas poderia ser uma opção interessante.
  • Explorar meios para que mais membros estudem a sua lição e frequentem a Escola Sabatina.
  • Tornar o culto semanal de oração interessante e acessível aos membros.
  • Esforço para fazer aumentar o número de membros que leem os livros do espírito de profecia.

A capacitação financeira é o processo durante o qual o membro desenvolve o seu potencial de criar e gerenciar recursos financeiros pessoais. Ellen White fala sobre a situação alarmante prevalecente na área de literacia financeira: “Muitos carecem de controle e economia. Não pesam bem as questões nem agem com cautela...” (Testemunhos para a Igreja. Vol. 1, p. 224). Como resultado desta situação, “quando se faz um apelo para o avanço da obra tanto nas missões nacionais como nas estrangeiras, nada têm para dar, ou até mesmo já estouraram sua conta” (Review & Herald, 19 de dezembro de 1893). Muitos crentes sinceros não participam da missão de Deus porque as suas finanças se encontram em desordem.

Existem algumas áreas da capacitação financeira que necessitam de atenção especial. Primeiro, os membros devem desenvolver a mentalidade correta sobre recursos financeiros: Deus é o Provedor e Ele concede a capacidade para gerar riqueza. É por isso que os nossos bolsos não estão vazios. Segundo, é necessário que todos desenvolvam hábitos sensatos com relação à forma como gastam o seu dinheiro, resistindo aos apelos dos comerciais que levam a pessoa  a gastar ao apelarem aos sentidos. Jesus instrui os Seus seguidores a “assentar primeiro para calcular a despesa” (Lucas 14:28).  Terceiro, os crentes devem compreender as implicações do endividamento. Como é que podemos evitar usar o dinheiro dos outros e, se já estamos endividados, como é que podemos sair desta situação? Quarto, a importância das economias deve ser esclarecida e os membros devem conhecer as melhores práticas. Quinto, ensinem e desafiem os membros a colocarem à prova o princípio “Tudo o que Ele recebe, Ele multiplica” ao devolverem o dízimo, darem ofertas e doações. Por fim, e fortemente ligado às doações religiosas, expliquem e convidem os membros a prometerem uma oferta com base em porcentagem.

Integração da Mensagem de Mordomia

O componente seguinte do modelo garante a propagação da mensagem de mordomia a todos os segmentos da igreja. Os novos membros e as crianças aprendem acerca da liberalidade através de exemplos e ensinos intencionais (Rom. 10:14; Sal. 78:5,6). A mordomia é captada e ensinada.

Todavia, evidências revelam a existência de uma ignorância normativa notória com relação às doações religiosas. A liberalidade não é a expressão principal do discipulado na mente de muitos Cristãos. Muitos não conhecem o ensino de 10 porcento de dízimo e ofertas proporcionais, de sacrifício, como norma da mordomia Cristã. Quais poderão ser os motivos desta ignorância? Uma das causas pode ser a dicotomia muitas vezes prevalecente entre o evangelismo e a mordomia. Quando apresentamos a mensagem do advento às pessoas, hesitamos instruí-las em questões de doação. Ellen White admoesta-nos com relação a esta omissão:

“Alguns recusam aceitar o sistema do dízimo; afastam-se, e não se unem mais com os que creem na verdade e a amam. Quando outros pontos lhes são expostos, dizem: ‘Não nos foi ensinado assim,’ e hesitam em avançar” (Conselhos sobre Mordomia, p. 105).

Outro fator relacionado com a ignorância normativa é o fenômeno de ‘mordomos relutantes’ nas finanças da igreja. Conway (2002) descreve os pastores como estando constrangidos para falar sobre finanças. Não querem dar a impressão de estarem a suplicar pelo seu próprio salário. Tem sucedido comigo em diversas ocasiões receber convites para apresentar palestras ou seminário com a recomendação da liderança para não falar sobre finanças. Como tal, a mordomia financeira torna-se um dos temas menos abordados no contexto da igreja.

Uma forma eficaz de partilhar a mensagem da mordomia é adotar uma estratégia camuflada, que consiste em incluir a mensagem da mordomia em programas e iniciativas existentes na igreja. Esta abordagem é normalmente menos dispendiosa e não sobrecarrega os planos da igreja. Algumas iniciativas “camufladas” podem transmitir a mensagem da mordomia de forma eficaz aos diversos segmentos da igreja:

 

  • Revitalizando a carta missionária e chamado à devolução do dízimo e doação de ofertas durante o culto de sábado.
  • Assistindo aos Aventureiros e Desbravadores para obterem as especialidades de Sábio Mordomo e Mordomia, respetivamente.
  • Instruindo os futuros membros sobre mordomia, durante campanhas evangelísticas e estudos bíblicos.
  • Nutrindo os membros na área de mordomia, com programas de visitas sistemáticas aos lares.
  • Pregando sermão relacionado com mordomia uma vez por trimestre na igreja local.

 Criação de uma Cultura Congregacional Propícia

Este componente do modelo incide sobre as características da entidade à qual são entregues as ofertas, a igreja. Eckel & Grossman (1996) fala sobre o “merecimento” de quem recebe: Está o contexto da igreja a motivar a liberalidade dos membros?

Peifer (2010, p. 1583) observa que as pessoas que consideram que o “orçamento é adequado,” “confiam na liderança” e “sentem-se entusiasmadas com os programas” normalmente aumentam a sua proporção de ofertas em 8 a 11 porcento. Nove porcento daqueles que não são ofertantes mencionaram a confiança no gerenciamento financeiro como o motivo principal de não darem (Smith and Emerson, 2008). Parece evidente que as questões relacionadas com gastos, despesas e conflitos financeiros congregacionais influenciam a forma dos membros darem, sendo a confiança um dos principais fatores determinantes.

As Escrituras indicam algumas informações acerca da forma como o apóstolo Paulo investiu na criação da cultura correta na igreja para motivar o ato de dar. Em 1 Coríntios 16:1-4, Paulo não apenas encoraja as ofertas planejadas e proporcionais, mas fala também sobre a responsabilidade da igreja como recetora das ofertas. Foram estabelecidas todas as condições para os ofertantes terem confiança plena.

Algumas ações podem melhorar o merecimento da igreja local:

 

  • Existência de um sistema eficaz de controle interno conhecido pelos membros.
  • Avaliação e melhoramento da qualidade dos programas e serviços.
  • Priorização do investimento na missão.

O crescimento da liberalidade é o resultado da forma como realizamos as atividades na igreja. É importante ensinar a teologia dos dízimos e ofertas, mas isto tem um impacto limitado, a menos que capacitemos os crentes e aumentemos o merecimento da igreja.

 

 

Referências

 

Conway, D., Saint Meinrad School of Theology., & Lilly Endowment. (2002). The reluctant steward revisited: Preparing pastors for administrative and financial duties: a report and commentary on a study conducted by Saint Meinrad School of Theology with funding from Lilly Endowment Inc. Saint Meinrad, Ind: Saint Meinrad School of Theology.

Eckel, C., & Grossman, P. (1996). Altruism in Anonymous Dictator Games. Games and Economic Behavior, 16(2), 181-191. Extraído de https://EconPapers.repec.org/RePEc:eee:gamebe:v:16:y:1996:i:2:p:181-191.

Hoge, D. R., & Fenggang, Y. (1994). Determinants of religious giving in American denominations: Data from two nationwide surveys. Review of Religious Research36 (2), 123- 148. doi: 10.2307/3511404. Extraído de https://www.jstor.org/stable/3511404 

Hoge, D. R., Zech, C., McNamara, P., & Donahue, M., J. (1996) Money Matters. Louisville, KY: Westminster John Knox.  

Iannaccone, L. (1994). Why strict churches are strong. American Journal of Sociology 99(5) , 1180–1211. Extraído de https://www.jstor.org/stable/2781147

McIver, R., K. (2016). Tithing Practices Among Seventh-day Adventists. (2nd Ed.). Cooranbong, Australia: Avondale Academic Press.

Mundey, P., King, D. P., and Fulton, B. R. (2019). The economic practices of US congregations: A review of current research and future opportunities. Social Compass 66(3), 400 – 417. DOI: 10.1177/0037768619852230. Extraído de journals.sagepub.com/home/scp

Olson, D. V. A., and Perl, P. (2005). Free and cheap riding in strict, conservative churches. Journal for the Scientific Study of Religion 44(2), 123-142.   

Peifer, J. L. (2010). The economics and sociology of religious giving: Instrumental rationality or communal bonding? Social Forces, 88(4), 1569–1594. Extraído de https://doi.org/10.1353/sof.2010.0004.

Smith, C., Emerson, M. O., & Snell, P. (2008). Passing the Plate. New York, NY: Oxford University Press. 

White, E. G. H. (1940). Counsels on stewardship. Washington, D.C: Review and Herald Pub. Association.

White, E. G. (2007). Conselhos sobre Mordomia. Ellen White Estate, Inc.

White, E. G. H. (1948). Testimonies for the church (vol.1). Mountain View, Calif: Pacific Press Pub. Association.

 White, E. G. (1999). Testemunhos para a Igreja, vol. 1. Ellen G. White Estate, Inc.

Aniel Barbe