Porquê eu Aumentei a Porcentagem do meu Pacto

LUTANDO PARA CONFIAR

Depois de uma luta pessoal, decidi finalmente aumentar a porcentagem do meu Pacto,[1] e não me sinto orgulhoso disso. Para começar, porquê que é que tem que ser uma luta? Como ministro, devia ser um exemplo e dar movido pelo amor a Deus e à Sua obra—mas a verdade não é tão encantadora. Na realidade, ainda luto com uma inclinação muito forte para o materialismo, consumismo e amor a este mundo. Para mim, aquilo que é tangível é muito mais atrativo do que aquilo que é intangível, o que torna difícil o desenvolvimento da confiança e fé em Deus.

A história de Abraão de sacrificar Isaque no altar mostra quão doloroso pode ser desenvolver a confiança em Deus, mas também o quanto o Senhor aprecia esse crescimento: “Agora sei que temes a Deus, porquanto não me negaste o filho, o teu único filho” (Gên. 22:12, ARA). É certo que os Cristãos devem estar prontos a sacrificar tudo, mas parece que a experiência da abnegação é dolorosa especialmente para aqueles que, como eu, têm uma inclinação mais forte para as coisas do mundo.

Tornei-me Pactuante[2] pela primeira vez aos 11 anos, atendendo ao que eu cria ser um chamado de Deus através do meu pastor local, Josino Campos. Aquela porcentagem (muito pequena) foi então dobrada quando o Senhor me concedeu o meu primeiro emprego, e depois aumentada mais um pouco (para 5 porcento) quando casei com a Mari e iniciei o meu trabalho como ministro. Dez anos mais tarde, depois de um ato poderoso de Deus (Ele quase que literalmente me salvou da sepultura), a minha esposa e eu nos sentimos compelidos a dobrar esta porcentagem—mesmo depois dela ter perdido o emprego por termos sido chamados para um campo diferente.

No meu novo cargo como diretor de Mordomia da AG, senti ser meu dever convidar anualmente todos os pastores a sacrificarem algo ao se tornarem Pactuantes ou aumentarem as porcentagens dos seus Pactos. Mas não deveria eu também aumentar a minha porcentagem? Pedro sugere que devemos ser “modelos do rebanho,” exemplificando o que anelamos ver naqueles que lideramos (1 Ped. 5:2-4, ARA, realce em itálico). Assim, a porcentagem do meu Pacto foi novamente aumentada em ocasiões diferentes.

Finalmente, em 2003 a minha esposa e eu fomos movidos a entregar como Pacto uma porcentagem da nossa renda que era bastante desafiadora. Iria ser necessário um milagre para nós sobrevivermos todos os meses até ao salário seguinte. Mas toda a minha família viveu milagres maravilhosos enquanto o Senhor cuidou de nós de formas extraordinárias! Na realidade, creio que estas experiências exercem uma influência profunda nas decisões dos nossos filhos por Cristo, porque podem sentir a Deus e a oração de formas muito reais. Por outro lado, se não damos, ou se ainda ficamos com muito para nós, haverá uma possibilidade maior de estimular a falta de compromisso nos nossos filhos.

No final de 2015, o chamado para irmos para os Estados Unidos causou grandes dificuldades econômicas. Primeiro, a Mari perdeu novamente o seu emprego. Em seguida, depois de vendermos tudo e antes de trocar o nosso dinheiro em dólares americanos, a moeda brasileira desvalorizou consideravelmente. Além disso, as nossas filhas informaram que iam casar as duas no mesmo ano, e decidimos dar alguma ajuda financeira para os casamentos e para iniciarem a sua vida de casadas.

Com o dinheiro que sobrou parecia impossível nós comprarmos uma casa, um automóvel e tudo o mais que precisaríamos no novo país. Além disso, como é que cobriríamos outras necessidades urgentes como um fundo de emergência, economizar para a aposentadoria ou para cuidar da Mari se eu falecesse?

Naquela altura parecia que o medo era mais forte do que a confiança, porque eu decidi reduzir a porcentagem do meu Pacto para um terço do que costumava dar. (Ainda penso se a falta de fé por vezes não se disfarça de prudência, levando-nos a perder algumas experiências preciosas de confiança que poderíamos ter vivido em caso contrário). Mas passados apenas três meses, o cuidado de Deus foi tão evidente que decidimos aumentar a porcentagem novamente, para dois terços do que era anteriormente.

Embora eu me sentisse bem melhor, tinha a impressão de que por vezes estava a viver mais pela visão do que pela fé. Não estava eu a deixar de aprender em como confiar mais plenamente no Senhor, depender mais dEle, orar mais? No meu caso, porque sou tão materialista, consumista e apaixonado por este mundo, quanto mais dinheiro eu tenho, menos necessidade sinto da oração.

Quando dar se fundamenta num chamado de Deus e não num desejo egoísta de ser reconhecido como filantropo (é um tipo de dar totalmente diferente), torna-se um exercício submisso de confiança em Deus e fortalecimento do relacionamento com Ele. Por vezes, ao permitir mais provações, o Senhor está bondosamente a convidar-nos a orarmos mais. Mas outras vezes, o mesmo convite a orarmos mais pode vir através da motivação de dar mais. Se damos mais, temos menos, e precisamos de orar mais. Se oramos mais, preocupamo-nos menos, confiamos mais, vivemos pela fé e o nosso olhar é desviado deste mundo e fixado nas realidades do porvir (Col. 3:1-3).

E não significa que ao aumentar a porcentagem do seu Pacto irá necessariamente baixar o seu nível de vida. Mas significa que irá precisar de aumentar o seu nível de oração. Ao mesmo tempo, irá exigir que aprenda de Jesus como encontrar o prazer real num estilo de vida mais simples, o que é algo muito importante no fim dos tempos em que vivemos. Irá igualmente precisar de orar por sabedoria para usar os recursos restantes de forma mais eficiente; necessita de orar por um coração puro, para se poder manter aberto(a) à orientação; e precisa de orar para encontrar os mesmos produtos e serviços a preços melhores (normalmente há um preço melhor em algum lugar).

É com esta experiência em mente que Ellen White sugere que “cada mordomo fiel” deve estar mais disposto a “aumentar a proporção das dádivas . . . do que de diminuir suas ofertas um jota ou um til.”[3] Esta citação não diz que é pecado reduzir a proporção (ou porcentagem) daquilo que damos, mas que o nosso objetivo deveria ser de aumentá-la, porque irá também fortalecer a nossa experiência de confiança.

Por outro lado, ela diz também que quando retemos mais, não temos necessariamente mais: “Pensam ser ganho roubar a Deus, retendo tudo ou uma egoísta proporção de Suas dádivas. . . . Porém se defrontam com perda em vez de ganho. . . . Sua atitude resulta na supressão da misericórdia e das bênçãos.”[4] Estas duas citações de Ellen G. White lembraram-me constantemente da importância de “aumentar a proporção” em ato de fé.

Finalmente, no ano passado, em 2019, fiz uma proposta ao Senhor, incluindo três “se” para minha exoneração. Eu aumentaria novamente a porcentagem do meu Pacto para a mesma proporção que era antes do fim de 2015, “se” Ele proporcionasse um salário à Mari, “se” o seu salário fosse no mínimo um valor específico (o que era improvável acontecer) e “se” a Mari concordasse com este rumo (eu a incluo sempre nestas decisões). Depois de tudo, ao decidir esta porcentagem, o meu salário cobriria apenas o dizimo, oferta, o financiamento da casa e do automóvel, seguros e impostos. Tudo o resto seria inevitavelmente da conta dela.

Passado pouco tempo, o Senhor cumpriu o primeiro “se” ao conceder-lhe um emprego que ela gosta muito. Mas uma vez que o segundo “se” não se realizou (o salário foi muito mais baixo do que eu propus), pensei por algum tempo que tinha sido liberado do meu acordo. Mas então, foi como que uma voz doce me convidasse constantemente: “Você não crê que, mesmo com o salário menor da sua esposa, eu poderei suprir todas as suas necessidades em Cristo Jesus?” (Fil. 4:19). Não consegui deixar de ouvir aquela voz!

Assim, depois de lutar por três meses contra esse pensamento, decidi finalmente conversar com a Mari sobre o plano. Parte de mim esperava que ela rejeitasse a ideia e me fizesse voltar a um campo mais “seguro.” Mas ela concordou imediatamente e fiquei sem opção senão voltar a dar a porcentagem desafiadora que dava antes do final de 2015. Quando recebi o salário seguinte comecei a cumprir a promessa e senti uma paz de espírito indescritível!

Ainda não conheço o fim desta história—é um experimento contínuo. O que nos guiará o Senhor a fazer com as nossas porcentagens no futuro, por exemplo, se a Mari não puder continuar no seu emprego? Eu não sei. Mas de momento, não olho para trás. Tem sido um privilégio viver com este tipo diferente de estabilidade, que não depende daquilo que se vê, mas das realidades que não se veem!

Agora oro por você. Não está o Senhor a chamá-lo(a) também para se tornar Pactuante? Não é este um chamado para que você confie mais e ore mais, para se desligar deste mundo e olhar para o mundo acima? Não é Ele capaz de suprir todas as suas necessidades?

Eis uma promessa antecedida por duas condições: “Se os homens amarem e obedecerem a

Deus e fizerem sua parte, Ele proverá tudo aquilo de que necessitam.”[5] Preencha as condições e esta é uma promessa com tudo incluído! Temos depois o convite de Davi: “Oh! Provai e vede que o Senhor é bom; bem-aventurado o homem que nEle se refugia. Temei o Senhor, vós os Seus santos, pois nada falta aos que O temem. Os leõezinhos sofrem necessidade e passam fome, porém aos que buscam o Senhor bem nenhum lhes faltará” (Sal. 34:8-10, ARA). Olhe para a frente e para o alto! Você é abençoado(a) do Senhor!

 

[1] Pacto é o nome usado para identificar as ofertas regulares e sistemáticas propostas a Deus como porcentagem (este é o sistema) de qualquer renda (esta é a frequência). Leia mais em Marcos Faiock Bomfim (Janeiro-Março de 2020). “O que é o ‘Pacto’”? Mordomo Dinâmico, vol. 23. no. 1, pp. 12, 13. Formato eletrônico do artigo em: https://stewardship.adventist.org/what-is-promise.

[2] Alguém que tenha planejado dar a Deus uma porcentagem de toda a sua renda como oferta regular e sistemática. Ver a nota final anterior.

[3] Ellen G. White, Conselhos sobre Mordomia, p. 173 (realce em itálico).

[4] Ibid., p. 58 (realce em itálico).

[5] Ibid., p. 139.

 

 

Marcos Faiock Bomfim

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