By Marcos F. Bomfim

AIgreja Adventista tem enfrentado uma média desafiadora de retenção de 50 por cento, obviamente com uma taxa de evasão correspondente. Mais do que um problema para a igreja como instituição, isso pode representar uma questão de vida ou morte eterna para os envolvidos. Uma questão que pode ser importante para as pessoas na administração da igreja (desde a igreja local até as instituições mais altas) é se há um diagnóstico confiável de evasão da igreja. Se identificado, ele pode ajudar líderes a dar atenção ministerial prioritária (nutrição) àqueles em maior necessidade, o que certamente afetaria as taxas de retenção.

Este artigo tem o objetivo de contribuir para essa discussão, sugerindo um diagnóstico de evasão da igreja, que provavelmente é o mais fácil de ser acessado. Ele apresentará alguns conceitos e estratégias da Bíblia e dos escritos de Ellen G. White, bem como dados sugestivos recentes sobre como encorajar membros da igreja a se tornarem mais ligados a Deus e ao Céu. Este artigo focará em formas como a generosidade e a doação financeira espiritual, ou a sua ausência, podem funcionar como diagnóstico para a apostasia e impactar as taxas de retenção da igreja.

 

O "Princípio da Retenção do Coração" na Bíblia

A retenção do coração (adesão interior), ao contrário da retenção do corpo (adesão exterior), é uma preocupação principal de Jesus, evidenciada em Sua pregação (i.e., Mt 5-7). Quando questionado sobre o que fazer para herdar a vida eterna, a resposta de Jesus surpreende o argumentador porque Ele apresenta um afeto (amar a Deus acima de todas as coisas e o próximo como a si mesmo) como um mandamento de suprema importância. A ênfase radical em como esse afeto deve ser buscado, "de todo o seu coração, de toda a sua alma, de toda a sua força, e de todo o seu entendimento" (Lucas 10:25-27; Marcos 12:29-31; Mt 22:37-39; Dt 10:12), pode sugerir que esse esforço de "nutrição" seja a essência de qualquer programa de retenção. Isso é tão essencial que sem isso qualquer exercício religioso, como adoração pública ou ofertar, é considerado insignificante para Deus (Marcos 12:33; Is 1; Os 6:6).

Mas em um mundo tão cheio de distrações, como os seguidores de Jesus desenvolvem esse afeto radical para como Deus? Em Mateus 6:19-21, Cristo declara que posses materiais são portadoras de afetos. Portanto, Ele adverte Seus discípulos para usá-las como instrumentos para colocar os afetos (o "coração") no lugar certo, no céu (com Deus em Sua morada), "pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração" (Mt 6:21).

O contexto imediato (Mt 6:25-31) deixa claro que por "tesouro" (riqueza), Jesus se referia a posses materiais, incluindo dinheiro. Mas como nós transferimos tesouros para Deus e para o céu e consequentemente colocamos nosso afeto lá? Em Lucas 12:33, 34, Jesus menciona a caridade primeiramente como uma forma de colocar tesouros no céu (e, consequentemente, o coração também). No entanto, isso envolve um espectro muito mais amplo que inclui tudo que pode ser dedicado ao Senhor, o que é sugerido pelo dualismo terra/céu encontrado no texto correspondente de Mateus 6:19-21, bem como nos escritos de Ellen G. White.

Saber que amar a Deus é a escolha mais importante para a vida eterna e que esse afeto pode ser iniciado e aumentado por meio da entrega financeira espiritual, é uma informação importante para os interessados em desenvolver estratégias de nutrição e retenção. Aqui Jesus está descrevendo Seu "Princípio da Retenção do Coração", uma estratégia divina elaborada para mantes o coração em Seu reino e não só o corpo na igreja.

Mesmo que o "Princípio de Retenção do Coração" de Jesus obviamente não seja limitado à entrega financeira espiritual, essa atividade deve ser incluída como um item integral na lista de práticas de devoção pessoal adventistas, de acordo com Rob McIver. McIver propões que essas práticas queconectam pessoas a Deus devem ser avaliadas e estudadas para propósitos de nutrição e retenção, incluindo a entrega financeira espiritual.

A aplicaçãoreversa do Princípio de Retenção do coração estabelece que discípulos professos que não estão direcionando suas posses (e, consequentemente, seus afetos) ao céu (a Deus),as estão investindo na terra e estão sendo incomodados e enganados por elas (Mt 13:22). Desta forma, eles estão aumentando seu afeto pelos objetos errados, estrangulandoa Palavra de Deus e se tornando espiritualmente infrutíferos (Mt 13:22). Esse afeto enganoso se torna uma doença espiritual chamada materialismo, também reconhecida por João como o amor do mundo, ou o amor das coisas. Isso produz uma perda correspondente de visão espiritual e uma perda de amor pelo Pai (1 João 2:15) - um resultado fatal da perspectiva da nutrição e da retenção!

[Amar] a Deus é a escolha mais importante para a vida eterna, e... esse afeto deve começar e aumentar por meio da entrega financeira espiritual.

 

Mesmo que a Bíblia não seja contra possuir riquezas neste mundo (É Deus "que lhes dá a capacidade de produzir riqueza" Dt 8:18), as riquezas não devem ser desejadas ou buscadas (1 Tm 6:9); caso contrário, Deus pode ser odiado ou desprezado (Lucas 16:13). Como não é possível "servir a Deus e ao Dinheiro" ao mesmo tempo (Lucas 16:13), a nossa atenção deve ser prestada "Reino de Deus e a sua justiça", e então "todas essas coisas lhes serão acrescentadas" (Mt 6:33). Obviamente isso inclui posses materiais necessárias.

Paulo também aponta para o risco espiritual extremo do materialismo para propósitos de retenção ao dizer que o "desejo de ser rico" impede muitos de entregarem seu dinheiro espiritualmente e afunda "homens na destruição e na perdição". Depois ele relaciona o materialismo e o amor ao dinheiro à apostasia explicitamente ao dizer que "o amor ao dinheiro é raiz de todos os males, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé" (1 Tm 6:9, 10; itálico inserido): uma conexão clara entre evasão da igreja e ganância.

Ellen G. White e o Indicador de Espiritualidade

Ellen G. White concorda com Paulo quando diz que o crescente "devotamento a ganhar dinheiro" é algo que "mata a espiritualidade da igreja e dela remove o favor de Deus".6 Se nós supusermos que o estado espiritual de uma igreja

afeta suas taxas de retenção, então podemos esperar que o "devotamento a ganhar dinheiro" entre os membros piore essas taxas. Devemos nós só nos sentarmos e esperarmos para ver o que vai acontecer com tais membros? Podemos nós considerarmos um estado de "morte espiritual" como precedente da apostasia? Como a igreja pode reconhecer essa condição de "devotamento a ganhar dinheiro" e "morte espiritual" em um membro da igreja e,se identificado, como os membros da igreja deveriam lidar com essa pessoa pela qual Cristo morreu? Podemos nós considerarmos infidelidade financeira para com Deus como evidência de "devotamento a ganhar dinheiro" e "espiritualidade morta"?

Outra declaração de Ellen G. White sugere uma resposta clara para essa última pergunta. Se referindo a Lucas 16:1-13 (a parábola do mordomo injusto), ela apresenta a influência estendida e desastrosa da infidelidade financeira para com Deus ao dizer que "aquele que retém de Deus aquilo que Ele lhe emprestou, será infiel a todos os respeitos nas coisas de Deus".7

Essa afirmação radical e abrangente ("será infiel a todos os respeitos nas coisas de Deus") conecta um membro de igreja que está recusando a Deus a um desenvolvimento gradual de todos os tipos de infidelidade imagináveis. Isso leva a um estágio de "espiritualidade morta" e finalmente à apostasia e à evasão da igreja.

Como o "amor pelo dinheiro" e a consequente infidelidade financeira também podem se relacionar à apostasia e à evasão da igreja pode ser explicado por uma pesquisa conduzida pela secretaria da Divisão Sul-Americana (DSA),8  que envolveu os padrões de devolução de dízimos e ofertas de todos os 1.054.367 membros que foram removidos em seu território em 2015-2017.9 O estudo mostrou que uma média de 86 por cento daqueles que tiveram seus nomes removidos da membresia nesse período não tinham qualquer registro de dízimo por pelo menos 36 meses antes de oficialmente deixarem a

igreja, e 91 por cento deles não tinha registro de ofertas durante o mesmo período.10 O que nós podemos fazer para motivar os membros da igreja a guardarem seus corações na causa da verdade presente, no céu e em Deus?

Ellen G. White diz que quanto mais contribuintes investirem no tesouro do Senhor, "mais ligados à causa da verdade presente" eles estarão,11 tornando a evasão da igreja muito menos provável. Para não deixar nenhuma dúvida, a mensageira de Deus explica que "a prosperidade espiritual está intimamente ligada à liberalidade cristã.”12 É por isso que a liberalidade cristã deve ser enfatizada, praticada e estudada sempre que taxas de prosperidade espiritual e maior retenção forem esperadas. Ellen White vai ainda mais longe ao dizer que "igrejas mais sistemáticas e liberais em sustentar a causa de Deus são espiritualmente as mais prósperas"13 e que é na obra de partilhar as bênçãos celestiais que (por meio dos dízimos, ofertas e caridade) "estão a vida e o crescimento da igreja".14

Parece claro que a entrega financeira espiritual está fortemente ligada ao crescimento da igreja e à prosperidade espiritual das igrejas, tornando a apostasia menos provável. Mas mais do que isso, ela é avaliada por Deus (2 Co 9:7)15 , e por isso tem implicação espirituais e morais definitivas (Ml 3:8-10). Ainda é necessária uma investigação mais ampla para verificar dados a respeito do relacionamento entre entrega financeira espiritual e padrões de retenção da igreja. Mas pelo menos de uma perspectiva bíblica e do Espírito de Profecia, parece evidente que a entrega financeira espiritual está intimamente ligada ao crescimento da igreja e à prosperidade espiritual e é esperada para aumentar as taxas de retenção da igreja. Por esse motivo, a entrega financeira espiritual deve ser encorajada, praticada, avaliada e estudada, porque a sua ausência pode ser considerada um previsor da apostasia. Registros financeiros de membros também deveriam ser estudados por um grupo seleto de líderes da igreja como uma ferramenta vital, ajudando-os a reconhecer e possivelmente prevenir a apostasia ao dar atenção prioritária àqueles membros em maior risco. Um estudo subsequente deve ser apresentado para abordar estratégias e programas com a intenção de fortalecer a devolução sistemática e/ou estabelecer intervenções apropriadas quando ela estiver ausente. 8

1Considerando 2012-2017, de acordo com Os Registros de Estatísticas Online da AG; acessados em 19/02/2019 (http://documents.adventistarchives.org/Statistics/Forms/AllItems.

2 Nós vamos considerar "Entrega Financeira Espiritual" como tudo que é dado a Deus como uma forma de Seus mordomos O louvarem, ou para reconhecê-Lo como o Dono de todas as coisas. Isso pode incluir dízimos, ofertas e caridade.

3 Um exemplo: "Há apenas dois lugares no Universo onde poderemos colocar nossos tesouros — no celeiro de Deus ou no de Satanás; e tudo o que não é dedicado ao serviço de Deus é contado do lado de Satanás, e vai fortalecer sua causa". - Ellen G. White, Conselhos sobre Mordomia, p. 21.

4 McIver, Robert K., Práticas de dízimo entre adventistas do sétimo dia: um estudo de demografia e motivos de dízimos da Austrália, Brasil, Inglaterra, Quênia e Estados Unidos (Avondale Academic Press and Office of Archives, Statistics, and Research, Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia), p. 153.

5 Depois de estudar padrões de oferta em cinco associações em cinco continentes, McIver identifica cinco "práticas de devoção pessoal correlacionadas aos dízimos", que são "[1] ir à Escola Sabatina, [2] abrir e fechar o sábado, [3] estudar a Lição da Escola Sabatina, [4] ler e refletir na Bíblia todos os dias, e [5] orar com frequência durante o dia". Por esse motivo, ele sugere que dizimar deveria ser incluído "como parte das práticas que constituem a devoção pessoal dos adventistas do sétimo dia". Idem.

6 Ellen G. White, Conselhos sobre Mordomia, p. 12.

7 Ellen G. White, Testemunhos para a Igreja, vol. 1, p. 198.

8 PowerPoint apresentado por Edward Heidinger, secretário da Divisão Sul-Americana, em 4 agosto de 2018, à comissão executiva da DSA, com dados obtidos do ACSM - Adventist Church Management System (Sistema de Administração da Igreja Adventista).

9 Uma média de 351.455 por ano: 313.473 em 2015; 368.123 em 2016; 372.771

em 2017.

10 Mesmo que o estudo não possa ser considerado conclusivo, ele sugere uma tendência que exigirá pesquisa adicional.

11 Ellen G. White, Conselhos sobre Mordomia, p. 45.

12 Idem., p. 31.

13 Ellen G. White, Testemunhos para a Igreja, vol. 3, p. 405.

14 Ellen G. White, Testemunhos para a Igreja, vol. 6, p. 448.

15 John C. Peckham, The love of God: a canonical model (O amor de Deus: um modelo canônico), 2015, IVP Academic, uma impressão da InterVarsity Press, p. 123.

 

 

 

Marcos F. Bomfim

Marcos F. Bomfim

O pastor Marcos F. Bomfim é o diretor do Ministério de Mordomia na Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia, em Silver Spring, Maryland, Estados Unidos